Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada - Carolina Maria de Jesus [Resenha]
Eu
nunca tinha ouvido falar na Carolina Maria de Jesus. Mas por insistência de uma
amiga acabei me interessando por ela e pela vida da autora e fui procurar para
ler. O resultado foi o encontro de uma vida que é a de “muitas Carolinas” pelo
Brasil, que mesmo sendo o diário escrito por volta de 1955, pode-se dizer que
infelizmente muita coisa dessa realidade permanece firme em nosso país, e
é parte da vida de muitos brasileiros. O que se sente ao ler esse tipo de obra
é a densa mensagem da autora, sua vida sendo exposta da maneira mais crua,
direta e real possível e torna o escrito um tanto pessoal, uma espécie de
autobiografia por se tratar de um diário com a narração em primeira pessoa de
sua condição de vida, e onde se é posto detalhes de sua labuta e seu
sofrimento.
Como
citei o livro é escrito em forma de um diário, onde é narrado cada
acontecimento do dia. A escrita dele pode assustar por ter erros ortográficos,
mas o responsável pela edição e publicação dos primeiros livros, o repórter
Audálio Dantas preferiu manter a escrita original da autora. Vale ressaltar aos
amigos leitores que a Carolina é semianalfabeta. Não que isso seja uma forma de
a diminuir, mas ao ler as várias passagens de sua obra parece que se está lendo
um autor mais consagrado e difundido como Clarice Lispector que também faz
muito bem o uso dessa descrição crua de suas ideias e visão de mundo. Carolina
Maria de Jesus era uma catadora de papel que morava na favela do Canindé, em
São Paulo, e Quarto de Despejo é a descrição da mesma em relação a sua
convivência nessa vida dura e miserável da favela. O interessante é o título do
diário escolhido por ela. Ela diz em algumas passagens do texto e em
entrevistas que “a favela é o quarto de
despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos¹”. Há um
lirismo profundo e tocante em muitas partes do texto, o pensamento dela, a sua
forma de enxergar o mundo com seu caráter firme e de batalhadora são tão
notáveis que é difícil não se impressionar e se encantar com a escrita dela. E
com esse conhecimento profundo e diário de seu cotidiano, não há ninguém melhor
do que a própria Carolina para descrever sua própria vida e citar nos mínimos
detalhes os seus sofrimentos, e ela fez isso com muita precisão e perfeição.
“Hoje em dia quem nasce e suporta a vida
até a morte deve ser considerado herói”.
Quarto
de Despejo – Carolina Maria de Jesus
A
visão dela da realidade é tão profunda que ela consegue notar e descrever
minuciosamente em sua declaração pessoal o quanto e como que sociedade é
incoerente em todas as suas camadas: os mais ricos (contando políticos e demais
melhores estabelecidos na sociedade) que são mentirosos e tratam com descaso
quem de fato necessita de ajuda, prometendo muito e pouco ou nada fazendo; os
mais pobres vivendo nas mesmas condições miseráveis, mas com inveja um do outro
e tentando prejudicar a vida do próximo de alguma forma. Mas confesso aqui que
o que me chamou atenção foi o fato de a inveja entre praticamente iguais ser
assim tão grande e até insensata. Há partes da narração da Carolina em que os
vizinhos jogavam água e brigavam com os filhos da Carolina sem motivos, as
zombarias quando viam a Carolina escrever, tentando desencorajá-la. A inveja
pode até parecer um despeito por seu orgulho, de a mesma tentar ter uma vida
digna mesmo tendo que catar papel, ferro-velho e comida no lixo para
sobreviver. Essa é uma parte tocante, que ela tenta ao máximo se manter digna
mesmo em meio a um lugar muito violento, sujo e insalubre, mostrando o quanto
que ela é humana. Certamente que os outros também eram humanos, e até em muitas
partes do texto é exposta a ajuda que um vizinho dá ao outro, a preocupação em
se estender a mão ao próximo em casos de necessidade; mas o esforço da Carolina
que quer mudar de vida e o que ela faz para ter dinheiro para poder lavar sua
roupa e a de seus filhos, ter uma comida saborosa e decente em sua mesa, a fuga
de vícios como bebida e a depravação que eram muito presentes no seu meio
social fazem dessa busca de “dignidade humana” muito tocante, e pensei bastante
nesse ponto enquanto lia.
O cotidiano violento é um fator muito citado
várias partes do livro. E a variedade de formas de violência é assustadora nas
descrições: violência doméstica, violência sexual, os homicídios, os roubos, as
ameaças e brigas de vizinhos são acontecimentos frequentes na favela. São
vários os episódios de embriagados ameaçando mutualmente, as confusões por
motivos diversos de uma família, mulheres nuas correndo na rua para fugirem de
uma surra de seus companheiros. As descrições que ela evita pôr das conversas
nas filas para pegar água, as confusões que acontecem nessas horas são cenas
que chegam a ser engraçadas e às vezes repugnantes. A própria Carolina tem até
pavor de ir buscar água por conta dessas conversas e evita, se meter em
confusões, e faz de tudo para manter seus filhos longe de tudo isso. Mas esse
lugar, como ela fala, as crianças aprendem tudo desde cedo. Praticamente veem
de tudo na vida já na infância, vivenciam tudo precocemente e não há muito o
que fazer, essa é a vida no “quarto de despejo”.
Alguns
trechos que ela narra são bem interessantes e pertinentes. Quando ela fala dos
políticos que só apareciam em épocas de eleição, que pegavam as crianças sujas
nos braços e prometem um monte de coisas aos favelados, mudar a realidade
deles, lutar por eles e serem a voz do povo, mas no fim, todos desaparecem após
serem eleitos. Pouco ou nada fazem pelo povo das favelas. É interessante ver
também como as instituições de caridade atuam nesse meio, uma mínima ajuda que
dessem, melhorava e muito o dia de quem nada tinha.
A
forma que a Carolina encontrou de amenizar sua tristeza e não ter uma vida como
a de seus próximos é muito notável. Todos procuram uma forma de expiação de
seus problemas. A forma de expiação da maioria de seus vizinhos era no
alcoolismo ou na prostituição; e a da Carolina era escrever. Em uma entrevista
no fim do livro, ela diz que “quando eu
não tinha nada para comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que quando
estão nervosas xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia no meu
diário²”. Foi uma das maneiras de além de aliviar um pouco sua vida dura,
transcrevia e expunha o seu cotidiano, as páginas da sua vida em seu diário. E
mostra ainda mais a força da autora, mantendo-se firme apesar de todas as suas
dificuldades, para não entrar nos caminhos que poderiam ser a sua ruína e a de
seus filhos.
“O livro é a melhor invenção do homem”.
Quarto
de Despejo – Carolina Maria de Jesus
Vejo
neste livro uma descrição poderosa e real da vida dos que vivem nos “quartos de
despejo”. Cenas de violência, a fome (muitas vezes narrada e repetida várias
vezes no livro), o descaso do poder público, abandono paterno são frequentes
não só na obra, mas também em nosso atual tempo. É uma obra do século passado
sendo atual em nosso cotidiano. Chega a ser tão atual que no presente ano de
2022, 33 milhões de pessoas estão passando fome em nosso país³. O que mudou e o
que foi feito entre 1955 e 2022 para combater a desigualdade e a fome? Refleti
bastante sobre isso após a leitura, e convido você que leu até aqui para
refletir comigo.
E esta resenha vai como forma de agradecimento a minha amiga Victória que tanto insistiu para que eu lesse e fez com que eu tivesse ânsia para ler este livro maravilhoso e tocante, e me fez viajar e refletir em tantas coisas que a leitura me fez divagar.
Obrigado a você, amigo leitor, por ler até aqui!
Referências:
1- Depoimento da autora no livro, página 171.
2- Depoimento da autora no livro, página 170.
3- Dados disponíveis no site: CONSELHO FEDERAL
DE NUTRICIONISTAS. Pesquisa Revela que a Fome Avança no Brasil e Atinge
33,1 Milhões de Pessoas. [S. l.], 8 jun. 2022. Disponível em: https://www.cfn.org.br/index.php/noticias/pesquisa-revela-que-a-fome-avanca-no-brasil-e-atinge-331-milhoes-de-pessoas/#:~:text=Segundo%20a%20pesquisa%2C%20125%2C2,%3A%20leve%2C%20moderada%20e%20grave.
Acesso em: 4 jul. 2022.
1-

Resenha magnífica !
ResponderExcluirNossa! Que história tão impactante!
ResponderExcluirA medida que se avança nessa tão perfeita análise o coração fica apertado, por todos os sofrimentos ela passou, e tantos deles ainda assolarem o Brasil. Mas a parte linda de tudo isso, a escrita era seu refúgio. Meus parabéns por essa resenha incrível!
Nossa, realmente, esse livro é muito forte, fortíssimo! Nos faz pensar bastante sobre o que evoluiu no nosso país... e de fato, pouquíssimo ou nada mudou, posso dizer que foi quase uma involução.
ResponderExcluirLivro magnífico, resenha magnífica, só coisas boas a comentar!!
ESSE LIVRO É REALMENTE MUITO FORTE!! NOS FAZ REFLETIR NO QUANTO O NOSSO PAÍS EVOLUIU... QUE NÃO FOI NADA MAS OK. MAS TAMBÉM TEM A PARTE QUE NÓS FICAMOS COM CORAÇÃO APERTADO SÓ DE PENSAR EM QUE ELA PASSOU. RESENHA MARAVILHOSA<3
ResponderExcluir