Memorial de Aires - Machado de Assis [Resenha]

Machado de Assis faz de sua última obra um lindo convite a reflexões sobre pontos da vida que são muito tocantes para qualquer leitor. Esta obra é escrita após Machado perder sua amada esposa Carolina em 1904, esta que ele amou muito e viveram juntos 35 anos de casados. Depois do falecimento de Carolina, Machado de Assis diversas vezes relatou em algumas cartas a amigos próximos, como a Joaquim Nabuco no mesmo ano do falecimento de Carolina o que sentia após perder sua conjugue, escreve para seu amigo com grande saudade em seu coração:

“(...) Note que a solidão não me é enfado­nha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará” ¹.


Coloquei o trecho acima de uma correspondência entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco, para que os amigos leitores possam ter um pouco da noção do impacto que a morte da esposa teve na vida de Machado. Tanto que o escritor de Dom Casmurro escreve um lindo poema para sua finada chamado "À Carolina" presente no livro Relíquias da Casa Velha (1906), que recomendo aos amigos leitores a leitura deste poema carregado de saudades e dá para notar o impacto que a perda de sua cônjuge causou na vida do renomado autor. Há relatos em biografias que dizem que Machado amava muito sua esposa, ela era uma companheira para todos os momentos difíceis da vida do autor. E uma das tristezas que ambos partilharam em vida, foi não terem tido filhos, fato este que não passa despercebido em seu exímio romance Memórias Póstumas de Brás Cubas que diz: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” ².  É possível durante a leitura deste emocionante livro perceber este sentimento de tristeza por não ter tido filhos, a saudade de sua querida Carolina e questionamentos sobre a velhice, a existência, a morte, a fidelidade e vida conjugal. A partir de agora, vamos conversar sobre Memorial de Aires, de Machado de Assis.


Após esta breve apresentação do autor e de seu desconsolo depois de perder sua esposa, é possível notar muito da vida do autor nesta obra. É o que as interpretações nos levam a crer e muitos fatos que se passam no enredo, que dando uma breve pesquisa na biografia de Machado de Assis, podemos encontrar alguns pontos que ligam o autor e sua obra. O enredo se passa no Rio de Janeiro e o protagonista e narrador deste romance já estive presente em uma outra obra de Machado de Assis, Esaú e Jacob (1904), que é o conselheiro José da Costa Marcondes Aires, que é mencionado na obra apenas como Aires. Após muitos anos trabalhando no exterior, o diplomata Aires retorna ao Rio de Janeiro e um ano após seu retorno, começa a escrever um diário que tem início de 9 de janeiro de 1888, um ano após seu retorno ao Brasil. Aires recebe um bilhete de sua irmã Rita convidando-o a fazer uma visita ao jazigo de seus parentes e agradecer por seu retorno. No cemitério os dois irmãos passam a conversar sobre seus finados entes queridos, incluindo a esposa de Aires, que foi sepultada na Europa. Mas há algo que chama atenção do protagonista ao observar ao seu redor, e vê uma mulher que atraiu seu olhar: a viúva Noronha, chamada Fidélia.


O nome da personagem é bem diferente dos que estamos acostumados (lembro de Virgília, que ele usa do nome feminino do poeta Virgílio para colocar em sua personagem em Memórias Póstumas de Brás Cubas) como os que Machado de Assis costumava usar para seus personagens. O que os críticos indicam é que Fidélia seria uma ópera de Beethoven com o nome Fidélio. Mas os críticos também argumentam que este nome tem a ver com a fidelidade da personagem com seu falecido marido que ela vai visitar no mesmo dia em que os irmãos Aires e Rita, e lá estava orando por sua alma que descansava há mais de dois anos. Aires pergunta para sua irmã quem era a moça que orava no jazigo e e após Rita revelar que era viúva de um médico, Aires indaga se ela não casaria de novo. Rita responde que não, e seu irmão ainda a questiona para saber o porquê, e ela responde que as circunstâncias e a dor que ela sentiu após perder o marido foi extenuante. Ela viveu feliz com seu finado marido, apesar de terem vivido pouco tempos juntos. Tiveram juntos uma história de "Romeu e Julieta", que eram filhos de inimigos políticos e se apaixonaram, fato que causou uma discórdia grande em suas famílias, coisa que os amigos e amigas leitoras irão descobrir melhor ao lerem a obra. 


Aires se interessa por Fidélia e passa a perguntar mais a sua irmã sobre a viúva Noronha, e permanece o questionamento se ela se casaria novamente ou não. Aires diz que casaria sim, o nome que poderia indicar fidelidade a seu finado marido não quer dizer nada, e Rita tem certeza que a viúva não casaria novamente. O debate dos dois irmãos chega a ser engraçado, e assim segue o romance com a aposta de um futuro matrimônio ou a permanência da viuvez de Fidélia. 


Quero agora um momento especial para citar os dois personagens mais tocantes do livro, e para mim um dos mais vivos e belos sinais de nostalgia do autor, e que parece ser a representação literária de Machado e Carolina, o casal Aguiar, D. Carmo e Aguiar. Um casal sem filhos, que vivem juntos, quase inseparáveis e se completam perfeitamente com uma devoção cativante. O fato de não terem filhos os fazem um pouco tristes, mas eles encontraram uma forma de superar esta ausência de descendentes através de nossa já apresentada Fidélia e de um distinto rapaz chamado Tristão (mais um nome diferente para um personagem, desta vez com referência à lendas celtas e influenciado pela ópera de Wagner chamado Tristão e Isolda, no século XIX), que se torna praticamente um filho do casal Aguiar, passando mais tempo na casa de seus padrinhos do que em casa de seus pais. O amor de D. Carmo e Aguiar por Tristão é o que compensa o casal pelo fato de não terem tido seus próprios filhos, e o rapaz acaba sendo mimado e cuidado com muito carinho e devoção pelos padrinhos. Devoção tanta que o amado "filho" do casal Aguiar quando parte para a Europa deixa os dois desconsolados, que queriam ao máximo manter seu amado rapaz por perto, e dói mais ainda a falta de comunicação entre os três que vai crescendo a cada dia. Difícil nestas cenas é não ter compaixão do casal Aguiar, que escrevem para seu "filho" pedindo notícias e um retrato para relembrar o casal de sua feição e se certificarem que Tristão estava bem. A saudade e a velhice são temas recorrentes na obra, todos os personagens têm uma saudade de algo ou alguém que tiveram, que poderiam ter ou que tem mas não está por perto. Aires por exemplo descreve em seu diário sobre sua solidão: "D. Carmo tem o marido e os dois filhos postiços. Eu tenho a mulher embaixo do chão de Viena e nenhum dos meus filhos saiu do berço do Nada. Estou só, totalmente só. Os rumores de fora, carros, bestas, campainhas e assobios, nada disto vive para mim". O teor fúnebre da obra remonta a saudade, as lembranças e a consequência que mais se acentua no melancólico Aires é a sua solidão. Ao observar o casal juntos o Aires sentia. Será que Machado de Assis se sentiu assim após perder sua esposa? Se formos interpretar de acordo com o livro e sua biografia podemos dizer que sim. O casal Aguiar pode muito lembrar Machado de Assis e Carolina, como já lembrado os dois se amavam muito, numa conexão tamanha que Aguiar estava tendo problemas de visão e D. Carmo era seus olhos. Poderia muito bem ter relação o fato com a ficção, que como notamos os dois não parecem separar-se. E um trecho de Memorial de Aires trouxe o sentimento que mais se atenua no decorrer da leitura, a admiração de Aires pelo casal Aguiar com toques de saudade:

"Ao fundo, à entrada do saguão, dei com os dois velhos sentados, olhando um para o outro. Aguiar estava encostado ao portal direito, com as mãos sobre os joelhos. D. Carmo, à esquerda, tinha os braços cruzados à cinta. Hesitei entre ir adiante ou desandar o caminho; continuei parado alguns segundos até que recuei pé ante pé. Ao transpor a porta, para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos." 


Não há mais aqui que o simples, mas completo amor do casal Aguiar e o quanto é notório que eles são um só. O casal de velhos parecia não precisar de mais nada, parecia que estar apenas os dois ali juntos já era o suficiente para completar um ao outro a existência, ou completar a saudade sentida. 


Com todas estas emoções mencionadas, o romance se desenvolve com as descrições de Aires em seu diário, e seu interesse por Fidélia vai aumentando. O que acontecerá entre ambos o leitor descobrirá ao ler. Há personagens que vão completar a obra, e uma delas é D. Cesária (aqui mais um nome com referência romana, desta vez o Ditador Júlio César 100 a.C - 44 a.C), mulher que gostava de falar de seu próximo e fazer piadas maldosas. Apesar de o livro ter um tema muito delicado, o humor de Machado de Assis permanece em alguns personagens, típico da escrita machadiana. Recurso também para amenizar a carga de sentimentos que o diário de Aires possui, fato que o próprio personagem comenta em seus escritos diários. Elogiar a escrita de Machado de Assis é chover no molhado, sabemos da genialidade deste fenomenal autor por suas outras obras consagradíssimas.


Ao rever alguns trechos do livro para escrever esta resenha, pude sentir novamente as impressões que tive quando realizei a leitura e o sentimento de saudade que a obra traz é tão denso que é quase palpável. Creio que um leitor com sensibilidade e atento aos detalhes da obra e da vida do autor poderão também ter as sensações que tive ao realizar a leitura desta emocionante obra, Memorial Aires.


(Foto por: @outroranos)


Título: Memorial de Aires

Autor: Machado de Assis

Data de Primeira Publicação: 1908
 
Editora: Coleção Clássicos da Literatura



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Referências

  1. Correspondência Machado de Assis & Joaquim Nabuco. Organização de Graça Aranha. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 2003, pp. 126-127.
  2. Capítulo CLX, Memórias Póstumas de Brás Cubas.


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