O Trágico Fim de um Ciumento: Otelo - William Shakespeare [Resenha]
Faço questão de sempre quando começo a falar de uma obra da literatura clássica citar o século ou o ano. E o porquê disso é que vejo e reflito sobre o motivo de tal obra ser considerada clássica, que, segundo o dicionário Aurélio, clássico significa “da melhor qualidade; exemplar”. Logo, esta obra da qual falarei aqui foi escrita por volta de 1603, no século XVII, e o motivo de ela ser considerada clássica, exemplar e de melhor qualidade fica nítido em cada ato que lemos.
Otelo
é uma peça de teatro dividida em cinco partes, contendo cenas entre cada parte
de três a quatro cenas, diferente de nossos queridos capítulos. É uma
experiência diferente, e durante a leitura fiquei imaginando como se eu
estivesse mesmo assistindo a uma peça, e entre cada cena se determinado
personagem saí ou entra, um colchete abaixo do diálogo aparece nos indicando a
ação, como, por exemplo: “[Otelo sai]”.
A
obra em si é atemporal (mais uma né?). Aspectos que a obra trata são tão
presentes atualmente que aqui já se explica o motivo de Otelo ser considerado
um clássico. A maneira que o autor descreve o ciúme e a destruição que ele pode
causar na vida de uma pessoa, a inveja e a dualidade do ser humano foram
nuances abordadas de uma maneira além de poética e com toque dramático
shakespeariano, deixam qualquer leitor reflexivo. “Como que uma peça escrita no
século XVI pode descrever tão bem nossos tempos atuais, acrescentando os fins
trágicos que muitas vezes acontecem em relacionamentos cercados por ciúmes?” Pensei e debati comigo várias vezes após a leitura.
O
Mouro, como também é conhecido Otelo, é um homem cheio de características boas,
sendo reconhecido por todos como um bravo guerreiro, um herói leal e honesto,
que chama atenção de toda a sociedade veneziana por ser assim tão distinto,
acaba se apaixonando por Desdêmona, a filha de um notável senador chamado
Brabâncio. O interessante é notar como Desdêmona se apaixona por Otelo, não por
sua beleza, o que em certas partes mais adiante nos dá a entender que ele de
fato não era belo, mas sim por ser tão nobre em suas ações, por seu passado
sofrido como ele mesmo narra e Desdêmona acaba se compadecendo por Otelo e a
paixão cresce nos dois e assim eles ficam juntos.
É notável que amor dos dois vai crescendo e há diálogos cheios de paixão e devoção, bem
típicos de um casal apaixonado, no início de sua relação. Mas, nem tudo são
flores, como vemos mais adiante na obra. Cabe aqui ressaltar que diferente do
mouro, Desdêmona era bela e “alva como a neve”, fato que alimenta em Iago, um
alferes de Otelo, uma inveja doentia de sua relação com Desdêmona e aí começa a
pôr ideias na cabeça do mouro, por meio de estratagemas, um sentimento que até
então o nobre e distinto Otelo não sentia: ciúmes; cria fatos de uma forma tão
verossímil e planejada usando Cássio, um tenente de Otelo como um sujeito que deve levar a culpa no lugar de outro. Dois sentimentos tão devastadores no ser humano como a inveja
e o ciúme são tratados na obra de uma maneira poética e reflexiva, e deixam
visível para o leitor o quanto que esses sentimentos podem ser destrutivos se
alimentados por qualquer motivo.
“Detalhes insignificantes, tênues como o ar,
apresentam-se aos enciumados sob a forma de confirmações, tão poderosos como as
Sagradas Escrituras”.
Otelo — William Shakespeare
É
interessante observar como que homem tão perfeito, tão calmo e tão centrado
como Otelo acaba se perdendo em acessos de loucura, enxergando coisas que não
existem, tramadas por um homem invejoso e astucioso como Iago. Aqui vemos como
o ciúme pode destruir o caráter e a honra de um homem que se perde em
devaneios, desvanecendo as suas notáveis e admiráveis características que o faziam
ser uma espécie de modelo para os demais. Neste ponto eu refleti bastante sobre os dias
atuais, como que casos como o de Otelo e Desdêmona são reais e acontecem
praticamente todos os dias, sendo intencionais ou não. É assustador ver com que
facilidade podemos encontrar casos que tiveram fins trágicos em relacionamentos
ocasionados por conta de ciúmes. Esta obra nos mostra isso, a que ponto pode chegar um ciumento, o desespero e as decisões trágicas que ele pode tomar para dar um fim ao seu sentimento de traição, de cólera alimentada por uma mulher considerada infiel.
Shakespeare
explorou de forma tão profunda a destruição da imagem do mouro, a culpa, a
raiva e a dualidade do ser humano que refleti bastante sobre o quão imperfeito que somos, por mais que sejamos nobres, honestos e distintos, temos algum
sentimento que, no fundo de nossas almas nos fazem lembrar o que temos de defeitos, que sentimos como qualquer outro e ainda usando Otelo como exemplo: não
nos conhecemos perfeitamente. Quem arriscaria dizer que o mouro em sua figura
tão imponente e de coração tão limpo, conhecido em toda Veneza e Chipre poderia
despertar sentimentos tão obscuros e destrutivos, perdendo-se em fúria e caindo
em desespero?
Acredito
que aqui já posso ter respondido ao amigo leitor sobre o porquê de se
considerar Otelo como um clássico da literatura universal, pois esta obra tem
grande relevância na nossa sociedade atual, observamos nela coisas que ainda
acontecem no nosso cotidiano, é uma maneira de se enxergar as várias partes do
ser humano e nelas observar o como somos contraditórios em certas partes, o
como que certos sentimentos podem ser destrutivos para nós. Se ainda não for
suficiente a resposta para você, posso afirmar ainda que há certos pontos que
podemos observar, e que arrisco dizer que serviram de inspiração para o nosso
querido Machado de Assis escrever Dom Casmurro, livro o qual também terá uma
resenha aqui no blog. Por enquanto fiquem com o ciúme de Otelo, o de Bentinho será
comentado em breve, aguardem.
Gostaria
de destacar aqui também quão fluida é a leitura do livro, é bem curto e faz
parte da minha lista de livros que se grudam em sua mão e quando você se depara
praticamente “devorou” 100 páginas sem se dar conta.
Agradeço
ao meu amigo e xará Matheus Felipe por fazer questão de me emprestar o
livro e pedir uma resenha dele, e pelos debates que fizemos e das reflexões
obtidas por nós após a leitura dessa incrível obra. Detalhe que não me escapou
foi o de ele ter escrito numa página “gado” em um diálogo onde Otelo corteja
Desdêmona, me fazendo cair na gargalhada.
Agradeço
a você também amigo(a) leitor(a), aos seguidores e seguidoras por lerem até aqui e darem seu
importante feedback.
“Todavia, palavras são palavras. Até o
dia de hoje jamais ouvi dizer que um coração machucado se consertasse pelo
ouvido”.
Otelo
— William Shakespeare
Título:
Otelo
Autor:
William Shakespeare
Ano:
1622
Editora: L&M Pocket
Ano de edição: 2019
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Shakespeare sempre teve essa habilidade de acabar com a gente em suas obras.
ResponderExcluirParabéns por mais uma análise digna de orgulho!
Sim, uma obra atemporal e a conclusão perfeita
ResponderExcluirResenha simplesmente perfeita!
ResponderExcluirFicou ótima a resenha!!!
ResponderExcluirResenha sensacional para essa obra que é referência na literatura por tratar de temas universais.
ResponderExcluirParabéns!������������
Que ótima resenha!! Deu vontade de ler!!
ResponderExcluirUma obra atemporal que reflete o nosso presente século XXI.
ResponderExcluirSensacional!!!!
ResponderExcluirResenha magnífica, meu amigo. Shakespeare é um ser que penetra na alma humana, em Otelo ele faz isso, traz à tona o ciúme doentio que há em todos nós.
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