Uma Incrível Obra do Século XIX: Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski [Resenha]


Não poderia deixar de falar desta incrível e marcante obra para mim. O fascinante é em como você consegue visualizar no século XXI os personagens criados no século XIX. Sim, caros leitores, esta obra é atemporal. Desde já aviso que eu adoraria passar horas falando de Crime e Castigo, do quão densa e importante é a leitura deste livro, mas vos pouparei de excessos de descrições e torcer para não ser muito prolixo, porque é tão empolgante para mim falar de Crime e Castigo que mal posso me conter no teclado de meu computador.


Gostaria de começar falando logo do personagem mais controverso que já “conheci” na literatura: Rodion Românovitch Raskólnikov. Perdão, mas faço questão de citar o nome completo dele aqui, porque sem dúvidas este cidadão merece destaque pela sua personalidade. Se você se sentir mais íntimo dele, chame-o de Rodka. Vivendo sob uma filosofia niilista (filosofia esta que durante a obra Dostoievski critica obstinadamente) que o fazia enxergar a vida de uma maneira distorcida e irreal, que estava acima de tudo, acima dos homens, das leis e até Deus. Mas esse orgulho todo na realidade era uma revolta de ser “um homem extraordinário” (visão que o Raskólnikov tem de si que é mais detalhada no livro) e ter de viver uma vida praticamente miserável, morar em um lugar pequeno e imundo, com uma proprietária avarenta e bastante debochada (personagem que me fez rir com sua personalidade), tendo que dar aulas para ter o que comer. Essa raiva que ele tinha dentro de si é tão notável que logo nas primeiras páginas dá para perceber o quanto que ele estava sofrendo consigo mesmo e com sua situação. Ora, para ele mesmo, esta não era a vida que ele deveria levar, por isso essa ira. E o mais estranho e intrigante é que ele não faz nada para mudar sua situação e chega a negar ajuda oferecida. “Que cara maluco”, pensei durante esta fase, “o que diabos ele quer? ”


Pois bem, o Raskólnikov cria e planeja em sua mente a solução de seus problemas: cometer um crime. Amigo (a) leitor (a), apesar de acontecer praticamente no início do livro e o autor “entregar” e apresentar quem será a vítima, não irei comentar aqui sobre o que aconteceu durante as cenas para não estragar a experiência de sua leitura (merece ser apreciada cada página), mas posso aqui ser sincero que me despertou tantas sensações que eu me senti junto do Raskólnikov no apartamento, ofegante e com medo, olhos bem abertos e o coração acelerado como os batimentos de um passarinho em pânico. Que cena! E ainda há mais surpresas durante a cena, é de tirar o fôlego.

É a partir do crime que começa seu castigo. Apesar de que se analisar bem o contexto, ele já estava sendo castigado desde o início da história. Mas depois do crime se observa uma transformação no Rodka que é de se espantar: a dúvida, o medo, a insegurança e a culpa tomam conta dele e parece que todo aquele orgulho e o elevado conceito de si começam a ruir com suas paranoias. A consciência é um ponto muito explorado pelo autor e observamos que ela atrapalha e traz mais perturbações na vida do Raskólnikov, o faz adoecer e temer pelo que fez, de se dividir entre culpa e, ao mesmo tempo, falta de arrependimento (muito controverso) e esse conflito interno que o faz querer expiar o crime de qualquer forma, proporcionando momentos de tensão em muitos diálogos.  Notável é ver o Raskólnikov do começo do livro e o do fim. E não posso deixar de comentar que os diálogos internos dele também são muito bem descritos e impressionantes a cada vez que ele tem essa conversa consigo mesmo, parece ser a descrição de um psicólogo analisando um paciente (Dostoiévski parece um psicólogo, em suas obras a questão da mente dos personagens são tão bem trabalhadas e densas que te fazem ficarem presos e ansiosos por descobrirem mais do romance).


Não posso deixar de destacar outra personagem importante, a Sônia Marmeladova, uma prostituta que o Rodka conhece por intermédio de outro personagem. Ela é importantíssima na fase depois do crime. A simplicidade, a benevolência, o amor e a perseverança dela em auxiliar o Rodka foi um ponto que me chamou atenção. Ela já tem seus sofrimentos, ter de se prostituir para sustentar seus irmãos mais novos, ser considerada inferior na sociedade por seu ofício e ainda aguentar seu pai numa vida de bebedeiras mostrou o quanto que ela é forte aguentando tudo isso sozinha, e ter ainda forças para caminhar ao lado do Raskólnikov com seus ataques de consciência e desespero mostrou-me um lado lindo entre estas tragédias e acontecimentos. Ela é incrível e merece destaque por ser fundamental na vida do criminoso e ser o equilíbrio para o Raskólnikov.


É uma leitura muito provocativa, me fez questionar muitos pontos da minha vida e me faz pensar ainda hoje, mesmo após três anos de leitura. Pensei bastante sobre muitos aspectos da minha vida e no tipo de pessoa que sou, nas pessoas ao meu redor. Simplesmente uma leitura para se guardar para o resto da vida e indicar ao máximo de pessoas que pudermos para não perderem a oportunidade de viajar numa das mentes mais brilhante do século XIX que é a de Dostoiévski.


“Além do que, para conhecer uma pessoa, seja ela quem for, é preciso que sejamos prudentes e discretos, a fim de não incorrermos em erros nem em juízos precipitados, que depois são difíceis de desfazer e retificar”.
Crime e Castigo — Fiódor Dostoiévski

"Além do que, para conhecer uma pessoa, seja ela quem for, é preciso qu sejamos prudentes e discretos, a fim de não incorrermos em erros nem em juízos preciptados, que depois são difíceis de desfazer e retificar".
Foto: Greicy Duarte

Comentários

  1. Uma análise feita de forma analítica e sensata. Só melhora! Parabéns!

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  2. Parabéns Cara, eu adorei essa análise!

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  3. 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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  4. Análise sensacional, parabéns!👏👏

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  5. Fascinante, parabéns! 👏👏

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  6. Adorei o texto. O que faz uma obra literária se tornar um clássico? Teu texto me fez refletir muito isso. Parabéns pelo trabalho.

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  7. Impossível ler essa obra e não favoritá-la. Dostoiévski nos faz viver essas emoções perfeitamente descritas e muitas outras. Quem não leio ainda, apenas leia. Vale a pena! Parabéns pela análise!

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