Em Agosto nos Vemos - Gabriel García Márquez [Resenha]
Falar do “Gabo” em literatura é esperar um bom livro, um enredo cativante, um texto fluido e bem escrito, coisa de que quem já o conhece, sabe e espera. Elogiar García Marquez é chover no molhado, se me permitem o uso de uma frase-feita bem clichê. É um autor amplamente conhecido e discutido, elogiado e aclamado pelos leitores. Inclusive por mim, claro, tem até uma resenha dele aqui no blog. E também, devo dizer, se o texto dele está aqui sendo apresentado a vocês por mim, é porque certamente algo me chamou atenção e gostaria de compartilhar com vocês um pouco da minha visão sobre a obra.
Comentar sobre uma obra envolve muitas coisas, e uma delas que considero muito importante é a transparência e a sinceridade. Falar sobre o que você genuinamente viu e entendeu é um grande passo para o desenvolvimento crítico e a formação de um bom leitor que busca compreender muito além do que um livro descreve. E nesta obra em específico, “Em Agosto nos Vemos”, gostaria de apresentar um pouco do que vi também por meio de um contexto pessoal do autor.
“Em Agosto nos Vemos” é um livro póstumo do autor, que há relatos de que o Gabriel García Márquez não gostaria que ele fosse publicado. Não quero entrar na polêmica das publicações de obras póstumas, mas é importante esclarecer que o desejo do autor não era de publicar o texto, pelo próprio García Márquez o considerar ruim. Também deve-se levar em consideração que o “Gabo” também não estava muito bem de saúde, inclusive chegando a esquecer algumas coisas que ele mesmo escrevia, além de estar trabalhando em outro livro, “Memória de Minhas Putas Tristes”, que foi publicado em 2004. Trata-se também de uma obra incompleta, algumas partes foram retiradas e reeditadas, mas mesmo compartes faltantes o texto não perde sua clareza. Levando estes fatos em consideração, posso seguir com meus comentários sobre a obra.
Aviso de antemão que “Em Agosto nos Vemos” não é uma obra-prima. Se um leitor espera um texto que seja parecido com “Cem Anos de Solidão” ou “O Amor nos Tempos do Cólera”, terá de colocar seus pés no chão e esperar um texto diferente. Aliás, esclareço também que não quero dizer que o livro é ruim. É original e vigoroso, que tem sua validação quando se compreende sua mensagem. Originalidade esta que torna esta uma ótima obra.
Estamos falando de um texto que coloca uma figura feminina como protagonista, que nos apresenta lados que incomodam, uma busca por um preenchimento da vida com coisas que talvez não nos façam mais felizes. Que somente mostrem que esta busca desenfreada por algo a mais apenas expanda o sentimento de ausência sem explicação. Nossa protagonista vive este dilema. Ana Magdalena Bach, em todos os anos, no dia 16 de agosto, realiza uma viagem para visitar sua finada mãe numa ilha. Uma mulher de quarenta e seis anos, muito bem casada com um marido que a ama, com dois filhos, apenas sua filha sendo um dos motivos de sua preocupação, Ana Magdalena nos é apresentada como uma mulher de boa família, calma e inteligente, aparentemente tudo normal. Faz seu trajeto anual para a ilha, somente uma visita para cuidar do jazigo de sua querida mãe, uma rotina. Mas esta rotina e este objetivo muda completamente após experimentar sua primeira aventura.
Ana Magdalena prova o sabor de uma aventura extraconjugal em uma de suas viagens à ilha, e é a partir deste ponto que as coisas mudam de figura. Ela, ao experimentar este momento, muda completamente sua vida. Na sua mente é criada uma expectativa de que no ano seguinte, em 16 de agosto, algo vai acontecer, ela pode esperar por mais uma aventura, e será o algo que ela está ansiando e necessitando para completar em sua vida. A rotina parece não ser mais o suficiente. É daí que vão surgir os problemas reais, será o mesmo também que escancarar um pouco da sua realidade, seus conflitos interiores e exteriores vão se tornar mais evidentes.
Parece que a cada aventura, uma nova Ana Magdalena aparece, uma nova personalidade aflora, e ela volta diferente para casa a cada viagem. Seus problemas parecem se destacar ainda mais, seu marido nota a diferença e começa a questioná-la sobre sua mudança de comportamento. Já não é possível mais esconder que ela a cada viagem vive algo intenso que mexe com seu brio. Ana Magdalena vive seu dilema agora como uma mulher experiente, sua vida pacata agora ganha novos rumos, e os entreveros com sua filha agora surgem com mais intensidade, o tratamento com seu marido agora é outro, sem perceber o trata mal e é grosseira. A escolha de Ana Magdalena a faz viver seus momentos de um dia em agosto tão intensos e inesperados, ao mesmo tempo que o choque de realidade a acompanha ao retornar a sua vida rotineira.
Este livro pode ser interpretado de várias formas. Essa é a graça da literatura, não é? Então, podemos ver na obra, como já destacado, o protagonismo feminino, onde a escolha da Ana muda muito sua vida e perspectiva, sendo fundamental para a mudança de sua habitual viagem de visita ao jazigo de sua mãe, agora com mais de um objetivo, que agora inclui uma aventura inesperada. A obra pode nos levar a entender sobre questões de vida de casado, fidelidade e traição, continuidade do amor após os quarenta anos, sobre a paixão e o desejo feminino que ainda resiste. E posso dizer que eu também vi uma mulher por vezes insegura, em busca de algo que sua vida comum não pode dar e suprir, e as noites nesta ilha a fazem procurar por um sentimento intenso que a envolva e mexa com sua mente. Esta minha interpretação tem base já no fim do livro, quando ela percebe que o fim de algumas coisas chega, ela vê como se fosse o seu interior, e repensa sobre sua vida nestes últimos anos. Não tenho aqui o objetivo se ser moralista, muito longe disso, mas Ana percebe que a vida a cada 16 de agosto pode ser uma aventura irresistível, ou uma decepção que a faz enxergar que o que ela busca não parece fazer tanto sentido ao se deparar com o que é a vida em si, a realização de seus desejos têm um preço.
Então, mesmo sendo um livro curto, sendo possível lê-lo em um dia, podemos ver que a magia dos textos do consagrado Gabriel García Márquez, sabendo que é um livro póstumo e sendo este o seu último, tem o poder de fazer na mente de um leitor. Perceber as nuances desta obra e compreender seus panos de fundo é reavaliar seu interior, é questionar paradigmas existentes e pensar sobre escolhas e a vida cotidiana, as relações familiares e conjugais, é rever sobre algo que o “eu interior” ainda busca. Esta obra é um convite também para apreciar o último livro do “Gabo”, saber que tivemos um grande autor em vida, que mesmo seu livro sendo por ele considerado ruim, não perde o seu brilho e tem sua relevância. Isso só mostra que García Márquez era um autor preocupado com a qualidade de seu texto, e é essa a preocupação que o fez ser um exímio escritor, e vencedor de um Nobel de Literatura.
Titulo da obra: Em Agosto nos Vemos
Autor: Gabriel García Márquez
Ano: 2024
Editora: Record
Agora eu quero saber a sua opinião, comenta aqui o que você achou do livro, se você se interessou e quer ler. Não deixe de me seguir nas redes sociais também! Um grande abraço, até a próxima resenha.

Não conheço a obra, mas ao ler a resenha, fiquei curiosa em saber um pouco mais sobre a narrativa
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