Ideias Para Adiar o Fim do Mundo - Ailton Krenak

 Hoje vamos discutir sobre um livro que me inquietou bastante, me causou um misto de esperança e desespero, soou para mim como um grito inquietante denunciando o que há de errado com nossa relação com a natureza, a Terra e nosso futuro. Mais do que falar sobre o livro, quero conduzir vocês a uma reflexão que tive a partir desta leitura, e através das mais diversas sensações e pensamentos que tive, quero apresentar meu ponto de vista e trazer você, amigo ou amiga leitor, para esta conversa importante e necessária em nossa atualidade. 


Este livro do Ailton Krenak soou como um grito para mim. “Ideias para Adiar o Fim do Mundo?”, pois é. Parece até contraditório, mas nem o Ailton Krenak tem uma ideia precisa de como fazer isso. Por isso, o autor não vem com uma ideia de propor uma solução para algo que parece inevitável, mas nos faz repensar muitas coisas, questionar coisas que incomodam os grandes capitalistas, a repensar nossa ciência e a nossa filosofia mercadológica, que trata nosso lar, a Terra, como uma propriedade, como instrumento e recurso infindável para extrair o que há dela para transformar em mercadoria. 


Este livro saiu de uma palestra, onde o autor recebeu um convite para participar de um encontro sobre desenvolvimento sustentável, e precisava nomear seu tema. Então, Ailton Krenak, meio que “no automático”, nomeia a palestra como “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”. Pode ter sido um “insight”, ou até uma inspiração num momento de distração, mas o que desta “ideia repentina” pode gerar um debate profundo, não é de se ignorar.


Por ser um autor conhecido como indígena, sendo uma das lideranças do movimento indígena no Brasil, também defensor do meio ambiente e das reservas indígenas, nossa tarefa é no mínimo parar para ouvi-lo. Ailton Krenak conhece bem a luta que é defender causas que são consideradas inúteis para uma parcela da população, vistas com desprezo e perda de tempo, por ser instaurada uma lógica de que “não existem indígenas e afrodescendentes, existe ‘o povo brasileiro’”. Além desta “máxima” de alguns pensadores (se é que podemos chamá-los assim), temos a ideia de que “o mundo é nosso, a Terra é uma fonte inesgotável de riqueza e recursos naturais que podemos extrair e trazer bens para a humanidade”, é defendida com unhas e dentes. São ideias muito equivocadas e cheias de furos que se faz necessário debater para não perpetuar para gerações futuras. É mais que necessário repensar certos conceitos impostos a nós como “verdades absolutas” e inquestionáveis. É claro que existe o povo brasileiro, não acredito que exista alguém tolo o suficiente para negar isso. Entretanto, nosso país é grande, cheio de diversidade e há mais que um povo brasileiro. Em nossas veias corre sangue africano, indígena e europeu, e é essa diversidade que enriquece nossa história. Há também indígenas no país, isso desde antes de Cabral aportar no Brasil, chegaram da África os escravos que foram vítimas da exploração do colonialismo de Portugal, e não se pode negar estes fatos. Então, há muito mais que um povo brasileiro, que é uma lógica que a Ditadura Militar em 1964 quis impor na sociedade, numa tentativa rasa de “unir” e apagar nossa diversidade. Além disto, nosso planeta não é uma fonte inesgotável de recursos, não é nosso servo e tem apenas esta finalidade, de nos abrigar e nos servir. Atualmente e mais do que nunca, a Terra está nos avisando sobre o impacto que a ação do homem está causando, o clima em suas mais diversas manifestações está nos expondo que tem algo errado acontecendo, e o homem é o autor destes efeitos colaterais. Não é só porque enquanto escrevo estas linhas num calor terrível que eu penso no futuro climático de nosso planeta, mas imagino que futuramente, se nada for feito sério e corretamente, essas temperaturas cheguem ao ponto de serem insuportáveis para a nossa e outras espécies sobreviverem, antecipando o fim do que conhecemos como vida. 


É neste sentido que Ailton Krenak nos faz repensar. Como vamos deixar o nosso planeta para as gerações futuras, como estamos cuidando da natureza e em que medida isto nos afeta? Para pensar nisso, nós temos que enxergar os sinais que estão chegando até nós, em resposta ao que a natureza nos dá como alerta. E como vamos resistir quando a nossa situação no planeta chegar ao ponto de que a vida será inviável para nós, humanos? A resposta de Ailton Krenak é como uma pedrada na cabeça de um distraído, ruidosa como a sirene de uma ambulância: “tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa?” (pg. 31) Então, ele nos dá uma resposta como indígena e como pessoa, como indivíduo, nos mostrando que a luta indígena é constante há mais de quinhentos anos, que eles lutam e resistem, e esta luta não para, em nossos dias. E como pessoa, mesmo tendo suas preocupações e suas lutas, Ailton Krenak se mostra preocupado com o homem branco, como ele cita, se saberá resistir às adversidades que ele mesmo se colocou e vem se colocando. 


Mais do que uma ideia, uma tentativa ou reflexão sobre como evitar o inevitável, sendo o fim da vida na Terra, Ailton Krenak nos convida a repensar sobre nosso futuro, nossa relação com nosso planeta, e o que podemos fazer para evitar o desastre que vem caindo sobre nossas cabeças. A leitura deste texto é um convite para repensar sobre nossas atitudes egoístas em relação ao que consideramos nosso, sobre a lógica capitalista de transformar a natureza em mercadoria sem se importar com as consequências, desde que esta sirva para seu propósito. A relação que os indígenas têm com a natureza é muito diferente da nossa. O meio ambiente, para eles, é como um parente querido, que dá sinais, conversa e responde a perguntas que o homem, em seu pensamento tão limitado, não consegue responder. Por isso, este cuidado tão grande, esta preservação por parte deles com a natureza. 


E quanto a nós? Ailton Krenak pode não ter a solução para sua própria indagação, mas talvez esteja mais próximo do que o homem que vive no meio urbano pensando em consumir e lucrar. Podemos adiar o fim do mundo? Talvez. Mesmo com a ideia pessimista de Lévi-Strauss de que “o mundo começou sem o homem e terminará sem ele”, acredito que ainda há esperança para a continuidade da nossa existência, mesmo que ela respire por aparelhos. Mas a ação para adiar o que parece inevitável precisa ser feita com urgência, como se fosse feita para salvar um familiar da morte. É mais que necessário repensar sobre nossa existência na Terra, sobre o que vamos deixar para as futuras gerações, e que não seja necessário o homem gastar bilhões de dólares para explorar e colonizar outro planeta para destruir. 




Título da Obra: Ideias Para Adiar o Fim do Mundo
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
Ano de Publicação: 2020



Você, amigo leitor, que chegou até aqui, qual a sua proposta para adiar o fim do mundo? Deixa aqui nos comentários o que você pensa e acredita ser a saída para este caos ambiental que estamos vivendo. 


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