Circe - Madeline Miller [Resenha]
É inegável a influência da literatura grega clássica atualmente. As explicações sobre o mundo giravam em torno das ações dos deuses sobre os homens. Quando Homero escrevia seus épicos poemas Ilíada e Odisseia que narravam histórias de semideuses e mortais como heróis, os deuses caminhando entre os homens mudando seus destinos e lidando com suas próprias intrigas. Sem contar também as tragédias gregas que trouxeram as encenações de histórias com finais dramáticos que são influentes até hoje no meio cinematográfico, e mostravam aos povo grego as histórias de mulheres que matavam seus próprios filhos (Medeia - Eurípedes, 431 a.C.), de um filho que matou seu pai e se casou com sua própria sua mãe (Édipo Rei - Sófocles, 427 a.C.), descrevendo o castigo de um deus que forneceu fogo aos homens (Prometeu Acorrentado - Ésquilo) e mostrando ao grande público do Teatro Epidauro a gloriosa vitória dos gregos sobre os bárbaros invasores persas (Os Persas - Esquilo, 472 a.C.). E o traço comum entre os épicos e o teatro grego é que estes estão sempre ligados a religião de tradição helênica, muito influente com os deuses atuando nas vidas dos mortais, inspirando-os, salvando-os ou arruinando seus planos. Com tudo isto Madeline Miller transparece para o leitor através de sua formação em estudos clássicos o que há de melhor na mitologia, teatro e poesia grega, trazendo uma personagem mitológica pouco conhecida, ofuscada por Atena, Zeus e cia. A divindade que Madeline Miller traz aos holofotes do Olimpo é Circe, a Bruxa de Eana.
Nascida do titã Hélios e da ninfa Perseis, Circe no romance nasce sem muito brilho que era esperado ao nascer de uma divindade como o deus do sol e da bela ninfa. A discussão dos especialistas é se Circe seria de fato filha de Hélios e Perseis ou se seria de Hécate e Hélios. Porém, vamos seguir aqui a linha do romance. Circe traz uma beleza incomum com seus olhos e cabelos meio amarelados herdados do pai, mas seu jeito pouco chamativo e sua voz não é muito agradável, coisa que com o nascimento de seus irmãos Pasifae e Perses, a falta destes atributos acaba se tornando um motivo para zoação. A família de Circe não seria um porto seguro para ela.
A autora traz uma coisa no romance que me chamou atenção. É sobre como ela traz a imortalidade dos deuses, o desenvolvimento deles e suas ambiguidades. Ela torna os deuses quase humanos, com necessidades e sentimentos profundos de inveja, vingança e rancor que são mortais, além de suas arbitrariedades que quem já leu algumas das obras que citei acima como o teatro e os épicos gregos vai relembrar. Reforcei a formação de Madeline em estudos clássicos, e ela sem dúvidas abusa deste seu conhecimento e apresenta uma nova forma de rever estas divindades, uma releitura dos clássicos numa visão contemporânea sem perder a essência dos textos antigos.
Circe então vai aprendendo como viver entre as outras divindades gregas, e com o tempo aprende como seria difícil conviver entre olimpianos e titãs. Circe toma uma atitude sobre o castigo de Prometeu após ter sido condenado por Zeus. Ela vê a situação do titã e sente uma compaixão muito grande, e na sua cabeça de pequena deusa aquilo não faz sentido. Circe compreende que não há muito o que fazer, apenas um pequeno gesto de compaixão. Então ela na sua solidão encontra com seu irmão mais novo uma praia, onde os pescadores mortais iam para pegar seus peixes. Ela conhece um mortal que mexe com seus sentimentos. Sendo tão forte que a partir desse amor ela comete um grande erro. Seu poder de deusa é diferente dos outros deuses. A pharmaka, diferente do conceito de fármacos que conhecemos, aqui se entende por bruxaria, que era temida até pelas outras divindades maiores é o que a torna poderosa. Então ela usa seu poder para uma causa que ela não deveria. Movida pelo ciúme usa a sua bruxaria para uma causa própria. É desta atitude que virá seu castigo, e ganhará seu título de Bruxa de Eana.
Os cenários são muito bem descritos. Os sentimentos dos personagens são bem nítidos pela forma com que a autora mostra com sua escrita. As aventuras que ocorrem durante a leitura te prendem e trazem uma beleza dos textos clássicos a escrita contemporânea da Madeline. Você vive um pouco da Ilíada e da Odisseia, personagens conhecidos para quem já leu estes poemas épicos, como o Ulisses (ou Odisseu), responsável pela criação do cavalo de Tróia. Seu filho Telêmaco e sua formosa esposa Penélope. É uma deixa também para conhecer estas obras de Homero, que a Madeline Miller reaviva nesta nova releitura, através da vida de Circe, a Bruxa de Eana.
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Fascinante esse mundo, e ótima análise. Parabéns!
ResponderExcluirSou até suspeita pra falar dessa leitura, amei cada página, uma narrativa que prende do início ao fim. E a resenha tá um show. Parabéns!👏🏼👏🏼👏🏼
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