O Imigrante Feliz - Mario Puzo [Resenha]
Uma obra pouco conhecida do escritor norte-americano Mario Puzo, autor de “O Poderoso Chefão” (The Godfather, 1969) a qual é sua obra mais conhecida, traz neste livro que será aqui comentado, as vivências de uma família italiana que imigram para os Estados Unidos com intuito viverem o tal sonho americano. Para quem já leu ou assistiu ao grande filme do “padrinho” percebe a importância que o autor dá quando se fala de família, fato que os europeus, sobretudo os italianos dão a uma das instituições mais sagradas que uma pessoa tem. A personagem chave deste romance serviu de inspiração para escrever “O Poderoso Chefão”, romance que viria depois e faria grande sucesso e ganharia um longa-metragem e uma trilogia da qual sou um grande fã.
Mas como citei no fim do parágrafo acima, só existiu, segundo o próprio autor, o grande Don Vito Corleone graças a matriarca de O Imigrante Feliz que se destaca pela sua personalidade, sabedoria e liderança. A personagem foi uma homenagem que o autor fez a sua mãe. Lucia Santa é mãe de seis filhos que morava na Itália e se muda para os Estados Unidos quando tinha apenas 17 anos. O sonho americano a chama para mudar de ida, de suas terras pobres e montanhosas, além disso, acaba descumprindo tradição de família e perde o respeito desta por não ter um enxoval, e injustamente por não ter condições de comprá-lo. A história se passa no período da Grande Depressão até início da Segunda Guerra, período de inúmeras transformações sociais e políticas no mundo. Durante a narração, o autor destaca a coragem, saúde física e mental de Lúcia, mostrando o quão forte e determinada ela era. Era assim destemida desde os tempos que recebeu uma carta da América convidando-a a se juntar a seu amigo que a conhecia desde pequena, para se mudar para os Estados Unidos, para juntos construírem a terra de “pedra e aço” e sair da pobreza de sua terra natal. Desta união nascem seus dois filhos e na gravidez do terceiro uma tragédia acontece e Lúcia Santa fica viúva jovem. Um fato que é notório após a perda de seu primeiro marido é a forma com que suas vizinhas e amigas passaram a tratar com desprezo a jovem mãe agora solteira, que era vista como uma “sanguessuga”, podendo arrancar dinheiro e bens das outras. Lúcia Santa ainda se casaria novamente e teria desta união mais três filhos, e o desenrolar da vida matrimonial dos dois será um fato que quero que o leitor ou leitora que acompanha estas linhas possa observar como irá desenrolar.
É interessante observar como o autor vai descrevendo o crescimento dos personagens. Ver como eles se relacionam com seus próximos e com seu tempo, já que estamos falando de início de século XX, onde acontecimentos históricos na época vão repercutindo na vida dos personagens e em seu meio, modificando a relação social e individual dos protagonistas. É onde se conhece na leitura a vida e o drama de uma família pobre de origens italianas nos cortiços de Nova York. Percebem-se as tradições que os imigrantes tentam manter mesmo distantes de sua terra natal, e como eles se preocupam em manter e ensinar seus filhos a perpetuarem o conhecimento que adquiriram por gerações. As conversas que as mães tinham quando se encontravam julgando os tempos “atuais” que viviam e como os seus filhos iam crescendo “diferente” de seus tempos é um fato até engraçado. Para os leitores que gostam de aprender insultos em outra língua irão receber gratuitamente um dicionário de xingamentos em italiano. Exageros a parte, os diálogos são engraçados, os impropérios soltados a longo da leitura trazem um pouco do que o autor pretendia deixar explícito ao escrever a obra, relatar nua e cruamente como era a vida dos imigrantes nestes cortiços, o comportamento deles, quando juntos, isso sem perder a seriedade, o lirismo e profundidade dos conflitos entre os valores tradicionais e os novos valores que estavam surgindo com o início do século. Este é um dos pontos que ilustra bem o que Mario Puzo buscava narrar, de como Lúcia Santa com sua força física e mental permaneceu e criou seus filhos mesmo com todas as dificuldades, e foi se reinventando para continuar firme e cumprir com seu papel de mãe de seis filhos. É notório o carinho do autor pela matriarca, ela é sempre sábia e dura quando é necessário, sem perder sua dignidade apesar de sua vida bastante modesta, seu cuidado com seus filhos e suas broncas típicas de uma mãe que se preocupa com sua prole.
“Só os pobres compreendem a vergonha da pobreza, maior do que a vergonha do maior pecador. Pois o pecador, vencido pelo seu próprio outro eu, é, em certo sentido, o vitorioso. Mas os pobres são realmente derrotados: pelo seu mundo, pelos seus padrones, pela fortuna e pelo tempo. São mendigos sempre necessitando de caridade. Para os pobres que têm sido pobres há séculos, a nobreza do trabalho honesto é uma lenda. As suas virtudes os levam à humilhação e à vergonha”.
Mario Puzo — O Imigrante Feliz
Algumas sacadas de Mario Puzo como a que destaquei acima faz parte de uma série de abordagens que o autor vai conduzindo durante os acontecimentos. O jovem rapaz Larry Angeluzzi vive seus conflitos de filho mais velho e protetor da família, mas como todo jovem, ele começa a ter seus próprios sonhos e enxerga a necessidade de ajudar sua mãe financeiramente. Octavia, com a puberdade vai tendo seus conflitos também principalmente com sua mãe, que quer que a filha seja um exemplo e tenha a educação tradicional italiana, e por isso tenta controlar Octávia, que acaba gerando conflitos entre mãe e filha. É uma parte muito bem detalhada a relação da família, o convívio deles vai sendo destrinchado a cada página e o leitor quer se adiantar logo para saber o que vem a frente, como a espera de um evento que possa mudar todo o trama.
Esta foi uma leitura que quando fiz fiquei completamente fixado, o livro não saiu de minha mão e quando me dei conta já tinha lido mais de 90 páginas num piscar de olhos. É impressionante a forma com que o Mario Puzo retrata a família, o ambiente e as dificuldades que os personagens encontram no decorrer dos acontecimentos, a dificuldade da dona Lúcia Santa de criar seus filhos praticamente só, tendo de cuidar de todos os outros problemas que ela tem. Ainda tem de lidar com os comentários maldosos de suas vizinhas e também cuidar de si mesma, do dinheiro escasso e de sua família. É uma personagem muito cativante, acredito que foi uma homenagem muito bem construída por Mario Puzo a sua mãe. Também seus filhos não passam despercebidos que completam tudo o que Lúcia Santa é, seus filhos convivendo num ambiente difícil e tendo que amadurecer desde cedo. Acredito que esta obra deveria ser olhada com um pouco mais de carinho pelos leitores de hoje, tanto que esta resenha que vocês aqui estão acompanhando é uma das primeiras a serem publicadas na internet em português, arrisco até a dizer que é a primeira.
É de fato uma pena que uma obra escrita com tanto carinho, vivência pessoal do autor seja pouco conhecida para os leitores aqui do Brasil. Há mais de Mario Puzo além de gângsters italianos, que foi uma forma inteligente do autor se lançar a Hollywood. Fato que o próprio autor chegou a confessar em sua autobiografia chamada “The Godfather Papers & Other Confessions” (1972) que nunca chegou a ter contato com a máfia, escrevendo sobre coisas que apenas ouvira falar, escrevendo a história por “inteiramente por meio de pesquisa”, e como um ótimo escritor e jornalista que era, escreveu com profundidade sobre o tema que parecia que tinha feito doutorado em “História da Máfia”, tanto que os críticos se recusavam a acreditar que Mario Puzo nunca tivesse conhecido um “Don” em sua vida. Não quero aqui destruir e criticar O Poderoso Chefão, carro chefe de Mário Puzo, mas apenas trazer aos amigos leitores bastidores das obra e explicar o porquê de conhecermos tão pouco mais de seus livros, como este que vos apresentei e que por muito brilho da obra do personagem Vito Corleone, ofuscou para os leitores um grande livro muito bem escrito e profundamente expressivo, O Imigrante Feliz.
Título: O Imigrante Feliz
Autor: Mario Puzo
Ano: 1980
Ano de Lançamento: 1965
Editora: Record
Agradeço a todos que leram até aqui esta resenha, comentem aqui embaixo o que vocês acharam e compartilhem com seus amigos que também amam ler e precisam conhecer esta obra.
Referências
PUZO, Mario. Godfather Papers & Other Confessions. [S. l.]: William Heinemann Ltd., 1972.
Cheiro de Livro. 20 Anos Sem Mário Puzo. Website: Carone, 2019. Disponível em: http://cheirodelivro.com/20-anos-sem-mario-puzo/. Acesso em: 31 maio 2023.
Dessa vez ele arrasou mais ainda, resenha inédita e maravilhosamente descrita. Parabéeeeens!👏🏼♥️📚
ResponderExcluirQue análise extraordinária!
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