Drácula - Bram Stoker [Resenha]

 

As narrativas sobre vampiros como bem sabemos são bem vastas tratam de muitos séculos atrás. Problema era tão grande que até Rousseau disse em uma carta que “Se algumas vezes existiu no mundo uma história digna de crédito, é a dos Vampiros. Não falta mais nada: autos, certificados de homens notáveis, de cirurgiões, clérigos e juízes. A prova jurídica abarca tudo. Com tudo isto, quem acredita, pois, nos Vampiros?”. Cito aqui o exemplo de um clérigo chamado Agostinho Calmet (ou Augustin Calmet: 1672-1746) que escreveu, em 1751, o seu famoso “Traité Sur Les Apparitions des Esprits et Sur Les Vampires ou Les Revenans de Hongrie, Moravie, etc.” (Tratado Sobre as Aparições de Espíritos e Sobre Vampiros ou Fantasmas da Hungria, Morávia, etc.), que trouxe relatos sobre aparições de vampiros nas regiões da Hungria, Morávia, Romênia e algumas outras cidades da Europa. Para a época, o livro foi certamente tratado com repulsa pelos cientistas contemporâneos do abade por seu conteúdo pouco científico, mas de qualquer forma, os relatos trazidos por Agostinho são bem intrigantes, citando casos de pessoas que morreram há dias e seus corpos parecem que não sofreram estado de decomposição, “parecendo até mais vivos do que eram¹”. Relatos de pessoas que sofreram ataques de vampiros são presentes no texto, e há descrição também dos “rituais de morte” dos ditos vampiros com “uma estaca afiada no coração, decapitação e queima de seus corpos¹”. Eu me estenderia aqui sobre este texto em específico, mas não quero perder o foco do principal do qual falarei. Mas os relatos do abade são bem ricos e descritivos, e para a época sem dúvidas o medo e as especulações sobre algo maligno que parecia uma sanguessuga humana dava arrepios em qualquer um da época de publicação do tratado. Entretanto, vale lembrar aos amigos e amigas leitores, que os conhecimentos de necropsia tiveram um avanço maior apenas nos séculos XIX e XX², e não se tinham ainda conhecimentos de como o corpo continua tendo algumas funções mesmo após a morte, e esses efeitos causavam espanto certas vezes aos “investigadores” dos cadáveres em seus túmulos. De qualquer forma aqui deixo a recomendação também para quem tiver curiosidade de ler esse texto e entender melhor esses relatos com detalhes.


Na literatura temos como um dos marcos da literatura gótica “A Noiva de Corinto” (1797) do Göethe que serviu de inspiração para as demais narrativas vampirescas; temos também “Carmilla” (1872) do Sheridan Le Fanu, livro que também pretendo resenhar aqui, que são exemplos de textos que por muito tempo mexeram com a imaginação de muitas pessoas dos séculos XVIII e XIX, e que ainda hoje são muito famosas e procuradas, e há diversas representações destas figuras malignas e sugadoras de sangue tanto na literatura quanto no cinema. E Drácula, do Bram Stoker, livro que será resenhado aqui não foge à regra desta representação literária de criatura humana que passa a ser um morto-vivo que vive do sangue de suas vítimas. 


Como citado acima, há diversas representações de vampiros na literatura, na história e no cinema. E em algumas delas o vampiro é uma criatura que se torna um ser que vive de sangue e não pode ficar na luz do sol. Fato este que difere bastante da narrativa que se lê em Drácula que até me surpreendeu na leitura, pois era já um fato para mim mais que consumado de que os vampiros não saiam ao sol, pois eles se queimariam e morreriam. Perdão aos amigos leitores e leitoras se for falta de conhecimento profundo sobre os tipos de vampiros, mas são diversos os exemplos deles que é difícil até relacionar cada criatura destes contos horripilantes.  Mas finalmente vamos para a resenha obra que em si, que há de mexer muito com o nosso imaginário.


O livro é escrito em forma de um diário, os personagens trazem seus relatos escritos ou gravados que depois são transcritos. Jonathan Harker é o primeiro dos personagens a trazer seu relato, descrevendo sua viagem até a Transilvânia para fechar um negócio com um famoso senhor da região conhecido como Conde Vlad, em seu castelo. Nessa primeira parte do livro o relato é tão bem descrito e vivo, que parece que você está viajando com ele e tendo todas as suas sensações. Ele vai descrevendo as vestimentas das pessoas na rua, o comportamento delas e dá detalhes dos lugares por onde ele passa. Mas ele fica espantado quando se aloja em um lugar que as pessoas se assustam e se benzem quando citam o nome de Vlad e não tocam mais no assunto de maneira alguma. Apesar de tudo, ele prossegue sua viajem até o castelo do famoso conde e o caminho até lá é bastante amedrontador, que aumenta com o frio florestal da Romênia, a neblina e o cocheiro peculiar que o guia até o castelo. Harker se estabelece no castelo e conhece pela primeira vez conhece um anfitrião em idade um pouco avançada, mas gentio e bem receptivo. Após algum tempo conhecendo o dono da casa, percebe coisas estranhas e um tanto anormais por lá. Essas descrições, deixo por conta dos amigos leitores, para não perderem a sensação de espanto das descobertas do Harker na propriedade do Conde Vlad. Os cenários são bem descritos, um castelo cheio de quartos, sem muita circulação de pessoas pelas redondezas e o clima frio contam como características da mansão do Conde Vlad.


Harker retorna à Inglaterra totalmente perplexo e amedrontado, os acontecimentos na mansão de Vlad mexem demais com seu psicológico que o faz guardar seus escritos e correspondências que eram destinadas à sua noiva e teme até tocar no assunto com quem quer que seja. E como as coisas ruins em livros (e filmes) de terror nunca deixam de acontecer e há sempre a possibilidade de um desastre maior, há fatos que acontecem que tornam as coisas bem sinistras mesmo longe da Transilvânia. Uma das personagens tem um envolvimento com o nosso antagonista e sua saúde fica comprometida. E é necessária a ajuda especializada de um dos personagens mais carismáticos do livro, o holandês Dr. Van Helsing. Ele observa o caso de perto e explica detalhadamente o que fazer com a situação já delicada da paciente. Flores de alho, diferente dos dentes de alho que vemos nos filmes (fato que também me surpreendeu), afastam os vampiros. Van Helsing sabe exatamente o que fazer nestes casos, sua paciência e conhecimentos são imprescindíveis para cuidar da situação. Há uma solução que já citei aqui no texto usada para dar fim ao caso do vampiro, que faz referência ao caso do Agostinho Calmet.


O livro é bastante rico em detalhes, a cada relato dos personagens há um pouco da agonia e do terror ao tentar lidar com esse ser maligno e a sensação tensa dá quase para viver com os personagens, sentir o medo e a aflição juntos, papel este que um bom livro deve cumprir, ao trazer para o leitor as sensações e os sentimentos dos personagens como se estivéssemos no lugar deles.

A leitura foi muito prazerosa, apesar de eu não ser muito adepto aos thrillers, mas me chama bastante atenção as histórias de vampiros. Apenas senti que o desfecho do livro poderia ter um impacto maior, a “luta final” poderia ser mais dramática e explorada mais a fundo, há um acontecimento um pouco desnecessário nesse fechamento da obra, mas disso preciso de uma segunda opinião, talvez eu tenha lido esta parte de forma insensível. Mas o que poderia ser não deixa a obra ser ruim ou fraca. Pelo contrário, parece até que o fim da história foi uma forma de compensar o sofrimento dos personagens desde o início, trazendo uma paz e um alívio que não existia.


Agradeço aos amigos leitores por lerem até aqui e comentem embaixo o que acharam da leitura e do desfecho da obra.


(Foto por: Greicy Duarte)

Título: Drácula

Autor: Bram Stoker

Ano: 1897

Tradução: Karla Lima

Ano da Edição: 2020

Editora: Principis


Referências

  1. CALMET, Algustin. Other Instances of Reavenans - Continuation of The "Gleaner". In: The Phantom World: The History and Philosophy of Spirits, Apparitions, &c. &c. Philadelphia: A. Hart, Late Carey & Hart, 1850. cap. X, p. 265.
  2. HONÓRIO, Sérgio. História da Necrópsia. InHistória da Necrópsia. Website, 7 set. 2016. Disponível em: https://anatomistaenecropsista.blogspot.com/2016/09/historia-da-necropsia.html. Acesso em: 16 out. 2022.


Comentários

  1. Ótima resenha! Adoro esse clássico. Agora que você leu o livro, indico assistir a melhor adaptação (em minha opinião) já feita para o cinema; Bram Stoker's Dracula - 1992 (Francis Ford Coppola)... bjs💋

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  2. Uauuu! Excelente resenha, super fundamentada. Meus parabéns!

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  3. Incrível meu amigo! Que análise magnífica, com sentimentos em torno dela. Acredito que esse é o papel principal da literatura, nos emocionar. Sensacional!!!!

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  4. Cara, sensacional um livro excelente, o final dele se bem me lembro pode ser decepcionante para alguns, eu gostei! Li no Ensino Médio, tua resenha me determinou a reler. Parabéns!!

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