Germinal - Émile Zola [Resenha]
Gostaria
de dizer aos leitores que esse aqui se pode chamar de um livro completo! Os que
me conhecem pessoalmente sabem que amo literatura russa, do quanto que admiro a escrita dos autores russos e a genialidade deles em descrever a
sociedade e os problemas que ela tem em todas as suas faces. Mas a literatura
francesa não fica para trás nesses quesitos de abordar com maestria as
divergências sociais e culturais de sua época e de apontar para temas sensíveis
e incomodativos para os leitores mais sensíveis, trazendo importantes reflexões
para, acredito eu, seus contemporâneos e para nós, leitores do futuro presente,
diria. Germinal é uma obra completa como citei acima, e posso repetir para os
que me perguntarem mais de uma vez que é uma obra completa. Costumo sempre
comentar com meus colegas que um livro é bom quando ele te faz olhar para o
passado, enxergar o presente e pensar no futuro, nas transformações que
ocorreram com o passar do tempo, o que se manteve da época em que foi escrito e
o que mudou até então, em nosso tempo presente. E é isso o que Germinal de
Émile Zola entrega ao leitor.
A
história se passa no século XIX em Montsou, na França. Etienne é um desempregado que vai para as
minas de carvão em busca de trabalho, e logo nas primeiras páginas ele ouve relatos
dos trabalhadores das minas de como o desemprego está afetando a todos no país.
Fábricas estão sendo fechadas, as pessoas estão sendo despedidas de seus
trabalhos, a produção diminuiu e a fome parece estar sempre batendo na porta
desses pobres indivíduos com pouca perspectiva de vida. O autor te faz ver como
que o trabalho nas minas funciona, de como que mulheres, jovens, crianças e
velhos todos juntos imundos de sujeira e suor lidam com os perigos químicos (o grisu
que é uma ameaça constante aos trabalhadores, por ser um gás que as minas de
carvão expelem naturalmente e é altamente perigoso se posto próximo ao fogo),
sendo compensados com salários baixíssimos e com péssimas condições de moradia.
Aí que se observa uma das partes mais chocantes da narração do Zola, as famílias
grandes compostas por mais de seis pessoas dividindo casas pequenas cedidas
pelos patrões, e tal qual os mineradores imundos de sujeira, as casas são tão
sujas que nem se conseguia tirar essa imundície que parecia já estar impregnada.
Sem contar também no cheiro rançoso e abafado que as casas tinham, os moradores
também contribuíam bastante com o mau cheiro, muitos deles iam dormir assim
mesmo, sujos e suados do trabalho penoso, árduo e diário. Um dos personagens, o
velho Maheu, demonstra como que é a vida que pouco se alterava em Montsou, que
dava pouco espaço para uma ascensão social; desde a tenra infância que ele servia
nas minas. Cresceu e trabalhava já há tanto tempo como minerador que seu pulmão
começa a se encher de carvão, e o escarro dele se torna preto do tanto de
resquícios do minério que se acumularam em seu corpo. A questão social e a
vivência dos mineradores são muito bem descritas pelo autor, e sob essas
condições de penúria, excessivo trabalho e descaso social, começa a “germinar”
uma revolta entre os trabalhadores.
Não
obstante, o autor faz uma passagem pela vida dos burgueses donos das minas de
carvão, que pouco estão preocupados com o que vão comer amanhã ou depois,
direcionando seus pensamentos a pequenos problemas domésticos como a escolha do
menu do seu jantar, do casamento e futura fortuna dos filhos, da manutenção de
suas riquezas e aumento de lucros com o suor e sofrimento dos miseráveis de
Montsou. Assim não deixa também de mostrar dessas famílias seu lado “sujo”, a falsa
caridade, a hipocrisia, as traições e as intrigas familiares, mostrando ao
leitor que apesar de todo o capital que eles tinham e seus domínios, não
escapavam de situações delicadas de família como os demais.
O título
do livro é interessante por ser polissêmico. Germinal era o nome do primeiro
mês da primavera no calendário da Revolução Francesa (21 de março a 29 de
abril) ¹. Associa-se também a palavra “germinal” com crescer, gerar e
desenvolver. Compreende-se então aqui que essa germinação é uma “semente de uma
revolução”. Etienne, influenciado por leituras de Marx e Charles Darwin mais
adiante (em certas partes até criticadas pelo autor por sua falta de método,
lendo as obras de forma pelo que parece aleatórias e sem uma compreensão real e
profunda da teoria dos autores), começa a esboçar uma revolta com os
mineradores. Com entusiasmo das leituras e vendo no futuro uma vida sem
exploração e de igualdade para todos, faz reuniões com toda a aldeia
expondo seus planos com uma ótima oratória e exemplificando como a vida de
todos mudaria com o engajamento político do povo, com as ideias socialistas que
ele aprende nas leituras. A maioria da população de Montsou vai aderindo às greves e gradualmente. O papel que as mulheres tomam nas greves é bastante
relevante. Elas tomam a frente nas reivindicações e nas depredações em muitas
cenas, são brutais e bastante violentas (em uma parte bastante engraçada, uma
das grevistas com cabelo desgrenhado muito alterada e emocionada pelos
discursos de Etienne finge estar agredindo um burguês invisível segurando-o
pelo pescoço e o esbofeteando-o no ar), elas incentivam seus homens a
permanecerem firmes na luta contra os proprietários das minas. A esposa de
Maheu, por exemplo, chama bastante atenção por seu firme posicionamento contra
os patrões de seu marido.
Mas um personagem chama a atenção por criticar e achar uma balela essa revolução pacífica de Etienne. O misterioso Suvarin, um russo refugiado na França que havia cometido crimes contra o Estado na sua época de militância, é homem de poucas palavras e de muitas ideias; diz em muitas partes do texto que a revolução que eles estão praticando é inofensiva, que com ela pouco irá mudar, e que a revolução certa e mais impactante seria a de “pôr tudo aos ares”, tomar uma ação mais violenta e incisiva, e aí tudo iria mudar para eles. Etienne acredita que as greves são o que o povo precisa, a economia dos patrões irá ao fundo do poço com a falta de trabalhadores nas minas e a produção parando repentinamente. E esse conflito de ideias acaba sendo frequente nos diálogos, e alguns outros mineradores discordam dessa ideia arriscada de se aderir a uma greve, e querem continuar a trabalhar e receber seu miserável salário.
Émile
Zola como fez parte da escola literária naturalista², ele acaba colocando
certas características físicas e psicológicas nos personagens, as quais
adquiriram de seus antepassados, dando importância a hereditariedade do Etienne
como fator para explicar seus problemas com álcool. Em páginas mais a frente é exposto que Etienne, assim como membros
de sua família, ficavam alterados devido consumo de álcool, se tornavam muito
violentos e incontroláveis. E essa característica é herdada pelo personagem
principal da história, e com consciência de seu caráter e de seu distúrbio,
evita por sua vez beber. Essa característica naturalista é presente também na
vida de outros personagens, como no já citado Maheu, que seu ambiente
influenciava na sua vida e que passou a vida de minerador para a geração
seguinte. Há outros exemplos presentes na obra dessa visão naturalista do
autor, parte deles são determinantes na vida dos personagens.
E
com todos esses detalhes citados, Zola ainda entrega um pouco de aventura e
tensão, é de tirar o fôlego os últimos capítulos. Uma espécie de “vingança”,
uma ação mais radical de um dos personagens acarreta um desastre de grande
proporção nas minas, e para nós leitores traz um dos momentos mais tensos e
delicados do livro. E é nessa fase final que se apresenta as consequências do
trágico caminho de uma revolução mal pensada e mal organizada, com
consequências irreversíveis em alguns personagens deixando marcas na vida dos
carvoeiros de Montsou.
“Nada acaba para sempre, basta um pouco de felicidade para tudo recomeçar”.
Émile Zola — Germinal
Foi
uma leitura incrível, que me proporcionou um pouco de aventura, comoção, tensão
e reflexão ao mesmo tempo. Tenho plena convicção de que os leitores que gostam
de uma leitura mais realista irão se deliciar em cada página dessa incrível
obra importantíssima da literatura clássica.
Referências:
1- ALTMAN, Max. Criado o Calendário da Revolução Francesa.
Website: Opera Mundi, 24 nov. 2009. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/2046/hoje-na-historia-criado-o-calendario-da-revolucao-francesa.
Acesso em: 4 jul. 2022.
2 — A escola literária Realista-Naturalista que surge no século XIX, tem
base nas teorias científicas e filosóficas da época como o Positivismo,
Determinismo e Darwinismo. O objetivo da escola literária naturalista era
apresentar a sociedade como ela de fato era, sem idealizações românticas que a
escola literária romancista adotava. A ficção no naturalismo é construída sob
um olhar mais científico, e analisa a sociedade em suas incoerências e
hipocrisia (o homem descrito animalescamente certas vezes), aliando a
crítica dos indivíduos num todo com um espírito reformador e engajado politicamente
(O REALISMO: a Realidade Desnuda. In: CEREJA,
William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira.
São Paulo: Atual Editora LTDA, 1995. cap. 18, p. 192-202).
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Obrigado
amigo(a) leitor(a) por ler até aqui. Deixe seu feedback nos comentários abaixo e siga
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Que resenha fantástica! Obra também fantástica! Parabéns!
ResponderExcluirMais uma resenha que desperta em nós , a sede de ler. Parabéns !
ResponderExcluirMais uma resenha clássica que nos transporta para a realidade difícil de uma época passada, assim como, nos estimula a vontade de conhecer a obra inteira. Parabéns pela análise!
ResponderExcluirSimplesmente um espetáculo de resenha. Parabéns!
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