Vivências de Passado Não Tão Distante: Torto Arado - Itamar Vieira [Resenha]
Quando
uma obra literária nos transporta para uma realidade muito próxima da nossa, a
imersão que temos dela torna-se tão significante que acabamos nos perdendo em
todas as nuances que o autor nos apresenta, em cada linha que ele narra.
Confesso aos leitores que como nordestino, senti em cada página a dura e
difícil realidade de minha região, todas as dificuldades que meus antepassados
viveram, tendo que lidar com o árduo trabalho em terras que não pertenciam a
eles, viver da terra e para a terra, sem ter o direito de fazer uma morada
permanente, tendo apenas a permissão de construir casas de barro que a chuva e
o tempo destruíam impiedosamente. Juntando ainda tudo isso com os efeitos da
natureza como a seca, com as chuvas torrenciais que acabavam muitas vezes com
os fastidiosos trabalhos sob um sol escaldante, dependendo da bondade dos
patrões donos dos latifúndios para uma ida ao hospital, ou de qualquer decisão
relativa a terra. Se você, amigo(a) leitor(a), já tiver ouvido histórias dos
seus avós ou de seus pais sobre como era espinhoso o trabalho no campo sobre o
sacrifício e a dificuldade do labor, do suor derramado nas plantações para ter
o que comer futuramente, posso afirmar com toda certeza que você irá entender e
se comover ainda mais com a épica e emocionante narração de Torto Arado.
Assim
como João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina e em Vidas Secas do
Graciliano Ramos, que apresentam ao leitor a dificuldade de se viver no
Nordeste do Brasil onde a seca, a pobreza e o trabalho duro dificultam a vida
das pessoas da região, Itamar Vieira, também ambientado no nordeste, te joga
rente a estes aspectos, levando o leitor a fundo em um passado não muito
distante onde ainda há certos aspectos escravistas, onde os de donos de terras
se aproveitam da situação precária de quem precisa de trabalho e moradia, dos que
eram em sua maioria descendentes de escravos, que não puderam mudar de
realidade.
A
história se passa em um povoado fictício do interior da Bahia chamado Água
Negra e narra a labuta da família de Belonísia e Bibiana, duas irmãs filhas de
dona Salustiana e do respeitado curador Zeca Chapéu Grande. São netas de
Donana, uma senhora muito marcante na história, um exemplo que parece sair da
ficção e aparecer na sua frente em carne e osso, pois como não encontrar
próximos a nós exemplos Salustiana que tiveram uma vida espinhosa de trabalho,
de caráter moldado nas tribulações de quem tem de sacrificar sua saúde e
descanso para dar o que comer aos seus e cumprir com as obrigações dos patrões,
e ainda ter de educar seus filhos nessas condições precárias? Zeca Chapéu
Grande, seu filho, se torna um curador respeitado na região, de uma liderança
ímpar e de influência nas decisões da fazenda, personagem muito cativante por seu
espírito simples e de liderança tanto administrativa quanto religiosa. Todos os
personagens da história têm uma profundidade muito bem explorada e viva, cada
um deles tem suas características marcantes e suas dificuldades parecem os
tornarem mais fortes, como Donana que passou por muita coisa que prefiro não
dar spoiler, mas que é muito comovente a sua história de vida, a força dela e
seu notável espírito que deu continuidade a uma geração com espírito unido e
guerreiro, como todos que lutam diariamente e conhecem seus caminhos espinhosos
a percorrer.
A
história é narrada a partir de três pontos de vista: Bibiana, Belonísia e Santa
Rita Pescadeira, divididos em partes: Fio de Corte, Torto Arado e Rio de Sangue,
e em cada uma delas a narração é feita por uma das personagens citadas
respectivamente. Aqui eu achei genial o autor colocar uma entidade como
narradora da última parte, foi o toque final que deu mais profundidade a
leitura e deu um desfecho que minhas palavras chegam a faltar para descrever o
quão embasbacado fiquei com o fim da leitura. Fantástico é um eufemismo para
explicar em como a Santa Rita Pescadeira, uma entidade que é até desconhecida
nas festas de jarê surge, e no fim tem um papel muito importante no desfecho da
história; ela surpreende e toma conta da parte final, espero que vocês tenham a
mesma reação que tive quando li as últimas linhas.
A relação das irmãs se torna mais próxima após
um acidente que ocorre logo nas primeiras páginas e faz com que as duas necessitem
ainda mais uma da outra, levando-as a se unirem ainda mais, a superarem as
dificuldades da luta diária do trabalho exaustivo. O que mais se destaca nesta
família é a força dos personagens, e é difícil não lembrar de nossos parentes
que lutaram como eles, fazendo chuva ou sol, de domingo a domingo, levantando
cedo para cuidar do plantio de pessoas que só apareciam nas terras para levar a
colheita, pouco se preocupando com as condições de seus trabalhadores. Há
muitos pontos interessantes que o autor toca, como a violência doméstica, o
êxodo rural, a luta de classes, a diferença que a educação faz na vida das
pessoas e a transformação que ela traz no caráter e na percepção de condição de
vida e a luta pelos direitos dos trabalhadores.
Não
posso deixar de citar a questão da fé e de como ela influencia na obra. Sempre
achei fascinante a religião de matriz africana, e a vivacidade com que é
narrado as festas de jarê e em como as entidades que influenciam na vida das
pessoas, que como citei mais acima tem um papel determinante no desfecho da
obra. É tão rica e enraizada a crença das pessoas do povoado que se percebe o
quão importante ela se torna, que acaba servindo como uma resposta para as
situações em que não há uma solução aparente, para cura das mazelas da alma e
do corpo e principalmente: como guia para a vida e decisões futuras.
Apesar
de ser uma ficção, encontramos muito da realidade nesta obra, e é difícil não
enxergar que personagens como os da obra existem ou existiram num passado não
tão distante. Uma leitura épica, uma viagem a nosso país desigual de um povo
que luta, sua e sofre, mas nunca desiste e nem perde a esperança de um futuro
melhor para sua família. Uma leitura fantástica, que assim como outros autores
brasileiros que costumo recomendar aos amigos(as) leitores(as), acrescento na
lista de conterrâneos sem medo de ouvir uma opinião negativa.
“Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.”
Torto Arado – Itamar Vieira
Título:
Torto Arado
Autor:
Itamar Vieira Júnior
Editora: Todavia
Ano:
2019
Agradeço
ao meu professor Bruno Augusto por ter me dado a oportunidade de ler esse livro
fantástico.
Agradeço
a você amigo(a) leitor(a) por ter lido até aqui!
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A análise feita é tão sublime quanto a obra. O tema que alguns tomam como "lenda" é mais real do que podemos imaginar.
ResponderExcluirParabéns pela publicação. Impecável!
Não tenho palavras para expressar diante de uma resenha tão completa, em cada palavra pude me transportar em algum momento para a leitura dessa obra, parabéns com certeza irei ler esse livro.
ResponderExcluirAguardando a próxima resenha.
Que arraso, maravilhosa análise. Parabéns por mais esse trabalho incrível. Continua firme!
ResponderExcluirAnálise genial! Cada análise que você faz, sinceramente, inspira qualquer um a ler a obra, parabéns!
ResponderExcluirExelente análise a sua, parabéns!
ResponderExcluirQuando a resenha de um livro é tão bem escrita, emana no leitor a vontade de ler a obra. Sua escrita é linda e você tem o dom das palavras e o dom de nos fazer viajar na história a partir de suas resenhas. Parabéns pela dedicação e trabalho.
ResponderExcluirÓtima resenha! Esse livro é de arrepiar!!!!
ResponderExcluirAnálise sensacional meu amigo. Cada detalhe abordado é essencial e desfiador, um desafio no sentido de despertar a curiosidade em quem ainda não leu. Sucesso, meu nobre!!!
ResponderExcluirParabéns ótima análise!
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