Uma Leitura Impactante: Anos de Chumbo e Outros Contos - Chico Buarque [Resenha]

Quando leio certas obras e nelas encontro um quê de realidade, costumo parar um pouco, beber uma água e tomar um ar. “A vida é um soco no estômago”, como diria Clarice Lispector em A Hora da Estrela, e eu sou obrigado a concordar. Talvez até você, caro leitor (a), concorde também.  É duro às vezes reconhecer certas realidades próximas a nós, vidas passadas que conseguimos visualizar através da leitura, mesmo que seja uma ficção, sentir seus sofrimentos e dissabores como se fossem com nós mesmos, lembramos de alguém conhecido, ou de uma matéria que observamos no jornal e que de alguma forma nos tocou e conseguimos enxergar a realidade bem próxima. Foi o que senti ao ler Anos de Chumbo e Outros Contos, de Chico Buarque.


Destaco aqui a fluidez da leitura que nos aproxima do cômico ao melancólico da vida, que nos faz enxergar a realidade de maneira crua assim como ela é, trágica e dolorosa, ao mesmo tempo que é engraçada e intrigante, que nos dá aquele pequeno alívio a uma dor lancinante. Em cada conto pode-se observar pela visão em terceira ou em primeira pessoa de maneira bem direta, todas as sensações que o autor tem ou teve ao viver e que te levam a imaginar num ponto comum de todo o livro que é a “Cidade Maravilhosa” o que acontece e se observa em todo o Brasil: a desigualdade, o abandono paterno, as traições, as mães que sofrem com seus filhos no mundo do crime e suas consequências, o poder da milícia, violência doméstica e os transtornos psicológicos, as psicoses que afetam boa parte da população nesses tempos difíceis que vivemos hoje.


O livro é dividido em oito contos sendo eles: Meu Tio; O Passaporte; Os Primos de Campos; Cida; Copacabana; Para Clarice, com Candura; O Sítio; Anos de Chumbo. Como citado anteriormente, o palco destes eventos é o Rio de Janeiro, e cada conto, meus amigos e amigas, são tão reais que é preciso digerir bem as informações parafraseando aquela famosa frase: “em toda ficção há um pouco de realidade”. Um misto de sensações se fizeram presente durante a leitura, e em todos os contos com o auxílio da incrível escrita do Chico Buarque pude visualizar tão nitidamente cada cena, cada ponto que ele toca e descreve são tão próximos que é necessário às vezes parar um pouco a leitura e respirar. Não gosto de dar spoiler aos leitores, todos merecem uma experiência e sensações completas para não perder de ver com seus próprios olhos o que se é posto na obra, mas cabe um comentário sobre cada história.


Em “Meu Tio” já começamos com e exposição de um pouco do reflexo do Brasil, onde o poder e o dinheiro sempre falam mais alto, e é mais surpreendente ainda a narração final, chega a dar um pouco de revolta, sinceramente não esperava uma conversa dessas, é pavoroso e real.

Já em “O Passaporte” o grande artista me causou boas risadas, o acontecimento inusitado e o que ele teve de fazer para sair de sua desagradável situação, a cólera que tomou conta dele, sua vingança infantil e o final é hilário! Um conto muito bem detalhado e engraçado, que, ao mesmo tempo, mostra a nós que mesmo com toda a fama, todo dinheiro e poder, somos humanos, tudo pode acontecer conosco.

“Os Primos dos Campos” é um choque de realidade, lembra bastante a questão familiar, o abandono paterno que faz parte da narrativa e a curiosidade que ele tem em saber de seu passado desconhecido com seu pai, sua namorada questionável, um ponto que me chamou bastante atenção essa namorada. Não pode deixar de notar a violência presente no conto, uma perda familiar dolorosa e uma certa revolta presente nos personagens.


Em “Cida” lembrei um pouco de Macabéa de A Hora da Estrela da Clarice Lispector, a ingenuidade da personagem e sua situação de vida é de partir o coração assim como com Macabéa, que vive, mas não se dá conta do que acontece com ela, apenas vivendo por viver. O fim é espantoso, chegando a ser patética a situação e a inocência da Cida que acabou sendo passada adiante, mas você lê e diz: “isso é a vida”.


“Copacabana” você tem um “encontro” com celebridades e suas peculiaridades, com Pablo Neruda, Ava Gardner e Romy Shneider. As atitudes deles são bem engraçadas e deixam o narrador sem ter o que fazer.  


“Para Clarice Lispector, com Candura” tive uma pontada de inveja, confesso. O personagem tem o privilégio de se sentar e conversar com ela, minha autora favorita, tomar um café frio e doce, ouvir seu sotaque nordestino arrastado, e fica apalermado por estar de frente com sua também escritora favorita, ficando a contemplar ela falando, bestificado. E quem não ficaria? Eu no lugar dele ficaria do mesmo jeito. Ah, o restante dos acontecimentos deixo com o leitor, é surpreendente o final, fiquem por aqui com minha inveja.


“O Sítio” é uma narração de uma temporada num lugar afastado do barulho e da peste na capital carioca, onde um casal que se conhece e decide, em menos de uma semana (muito rápidos ein?), passar um tempo em Santa Gláfira. Daí ocorrem fatos bem inusitados, sonhos estranhos, acontecimentos inesperados que fazem desse conto um tanto intrigante e instigante, cheio de surpresas.


“Anos de Chumbo” é bem tenso. Narra a história do filho de um capitão responsável por realizar as torturas da época da Ditadura, além de conviver com sua deficiência tem que lidar com seu pai violento e presenciar sua mãe sendo agredida, como uma espécie de saco de pancadas. Sem contar que com sua imperfeição física, a válvula de escape do garoto era seu amigo que compartilhava uma paixão em comum: soldados de chumbo. Aqui é visível a solidão do rapaz, sua limitação o incomoda muito, as visitas do superior de seu pai, o major também o deixam desconfortável. E mais uma vez Chico Buarque nos leva a um fim bem inesperado, aquele fim de se ficar sem palavras, só correndo os olhos pelas páginas de boca aberta, para fechar com chave de ouro seu livro de contos.


Praticamente devorei esse livro, apesar das pausas que fiz para respirar após tanta “porrada” que levei, eu curti muito a leitura, e os livros que me fazem refletir são os que mais me marcam, e esse é sem dúvidas um deles. Não quero apenas recomendar a você leitor a devora-lo como eu o fiz, mas a observar cada detalhe que o autor te traz, te induz a observar em seu cotidiano e questionar muitas coisas que acontecem, mas no fim, só dizemos: “isso é a vida”.


Quero aqui agradecer ao meu professor Bruno Augusto por me dar a oportunidade de ler esta maravilhosa obra, realmente como ele falou para mim ao me entregar o livro: “leia, você vai gostar”. Posso responder a ele que não apenas gostei, mas acrescento na minha lista de melhores leituras do ano de 2022, e que aqui ficará registrada a minha gratidão ao professor Bruno por ter me proporcionado uma leitura assim tão magnífica, e em minhas humildes palavras as sensações que tive ao embarcar nessa inesquecível viagem.

 

“Relembrar a juventude é como olhar dentro de um poço […]”.

Anos de Chumbo e Outros Contos — Chico Buarque.


Editora: Companhia das Letras

Ano: 2021

Páginas: 168


“Relembrar a juventude é como olhar dentro de um poço [..]”.
Foto tirada da internet

Comentários

  1. Narrativa maravilhosa parabéns!!!!!!

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  2. Ótima resenha!!!! "Isso é a vida"

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  3. Jonas Cleison Vaz10/4/22 20:33

    Análise top ������

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  4. Parabéns pelo o trabalho muito bom gostei 👏🏾👏🏾👏🏾

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  5. Que análise tão rica de profundidade, detalhes e emoções. A única vontade que dá é ler a obra com urgência. Parabéns pelo trabalho incrível!

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  6. diga-se de passagem que o cheiro do último livro tbm o seduziu bastante, q narrativa incrível meu caro, gostando mt de ler suas resenhas por aqui

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  7. A cada análise ele se supera! Parabéns!

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